Cora Coralina e eu!

Cora Coralina e eu!

Eu só me lembro de Cora Coralina bem velhinha. O cabelo bem branco, as mãos bem enrugadas e manchadas, tudo bem gasto, como se o corpo dissesse como e quanto o tempo passou pra ela.  Pensava, como tantos, que Cora, só havia se dedicado a poesia depois dos 70 anos, quando se ensina até em silêncio. Mas a história não é essa. A primeira publicação foi ainda na adolescência, mas vieram, marido, filhos, viuvez, roupas pra lavar, casa pra limpar, doces para fazer. Cora gostava de dizer que era melhor doceira do que escritora. Do tacho, na mistura de frutas e açúcar, a poetisa tirou o sustento dos filhos.

Hoje examinando um texto dela, pensando na vida dela. Pensei… Que tamanho a obra dela teria, se desde a primeira publicação, Cora Coralina, tivesse sido Cora Coralina? Não dá pra saber.

Dá pra saber que ela tomou uma decisão: Casar, ter filhos e cuidar de todos, mesmo que depois tivesse que arcar com tudo sozinha. Cora foi um doce arrimo de família e ainda achou tempo para ser a Cora Coralina de versos e prosa, mesmo depois dos 70 anos.

Pensei então na minha decisão! Inversa, mas parecida!

Assim como Cora, tive marido e filhos, fiquei sozinha no meio do caminho e tive de trabalhar para sustentar o meu trio, no caso dela, eram seis! A diferença é que não fui fazer doces, fui contar histórias, algumas com ares de poesia. Outra grande diferença é que ser jornalista desde sempre, deixou a prole com o que sobrava de mim, exposta a muitos riscos. E a vida cobra! Mas, a vida insiste em nos dar chances o tempo todo. Hoje, as minhas prioridades são minimizar os riscos, falar com meus filhos com amor e maturidade, e ter a minha família a salvo em volta do meu fogão, ou o mais próximo disso. Assim, como Cora Coralina que aos 70 anos teve tempo para ser uma mulher de poesia e amiga de Drummond. Aliás, como ela disse no texto que hoje eu examinei, o mais importante é o decidir! Leia!

…”Procuro semear otimismo e plantar sementes de paz e justiça. Digo o que penso, com esperança. Penso no que faço, com fé. Faço o que devo fazer, com amor. Eu me esforço para ser cada dia melhor, pois bondade também se aprende. Mesmo quando tudo parece desabar, cabe a mim decidir entre rir ou chorar, ir ou ficar, desistir ou lutar; porque descobri, no caminho incerto da vida, que o mais importante é o decidir.” Cora Coralina

Autor

Marilucy Cardoso

Marilucy Cardoso

Jornalista, mãe, canceriana, nascida em 1973, cheia de histórias para contar e suja algumas panelas nas horas vagas.

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Comentários

  • Vanice Assaz Vanice Assaz setembro 30, em 13:48

    Que bela mestra vc arrumou!!!!Mas eu sei q mesmo sem Cora para se espelhar, a mulher Marilucy seria essa mesma: outro espelho exemplar.

    Responder

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